Cabeça não é HD – Parte 2

Cabeça não é HD – Parte 2




Por Raquel Costa - Este é um post-comment. Acontece que o updater @jorgecarvalho trouxe para cá um assunto que muito me interessa: o uso de nossa capacidade cognitiva em atividades que vão além do armazenamento de informação. Então, resolvi aproveitar o post e o seu ótimo título para amplificar um pouco mais essa discussão por aqui.

Não preciso contar para ninguém que a quantidade de informação que existe hoje fora da sala de aula supera de longe a quantidade de dados e informações existentes dentro dela. E que as crianças deveriam aprender a lidar com toda essa informação que já está disponível, do que memorizá-la para que um dia, talvez, possam usá-la. Certo?

Porém, mesmo sabendo disso, as escolas e universidades brasileiras (inclui as universidades a pedido do Felipe Pacheco) – com raras exceções, preferem ignorar a realidade e seguir adiante com suas pastelarias. A grande ironia é que as vítimas dos seus ingredientes são crianças e adolescentes que já vivem em uma sociedade em rede, mas que mesmo assim precisam se enquadrar nos esquemas obsoletos e mesquinhos de pais e educadores sem visão.

No último final de semana, acompanhei o martírio do meu sobrinho de apenas oito anos ao se preparar para as provas trimestrais. Sem exagero, foi de dar dó. A quantidade de informação que ele deveria saber na “ponta da língua” era impraticável. A mãe, louca para que o filho seja um dos primeiros da classe – e presa a um paradigma que já era obsoleto há trinta anos, ali do lado que nem um leão de chácara. Sua grande ameaça, a antiga e famosa chamada oral. De tudo que vi naquele dia a única coisa que faltou, comparado às histórias que minha mãe contava sobre sua infância, foi a vara de marmelo. O resto foi exatamente igual: pressão, medo e tristeza.

Sei que milhares de crianças passam por isso diariamente. E que as escolas particulares, em especial, com o intuito de manter seu status quo e de mostrar serviço, se aliam a pais que adoram o esquema enlatado “preparação para o vestibular” que começa logo após a alfabetização (uma pena), onde simulados pré-vestibulares ocorrem mensalmente a partir do quinto ano do ensino fundamental.

Mas meu Deus, quem precisa disso?

O problema é que apesar de todas as discussões que vem ocorrendo no campo da educação, e das intermináveis conversas sobre unificar ou não os vestibulares, ninguém aparece para propor algo diferente. Algo que valorize e potencialize o aprendizado em rede, a capacidade de criar e construir coletivamente, de compartilhar conhecimentos e avaliar critérios de seleção e orientação de conteúdos, para que as crianças aprendam a navegar com segurança através dos dados e informações que circulam na rede.

Nunca, na história da humanidade, tivemos tanta oportunidade para estimular as crianças a resolver problemas reais de maneira estimulante como nos dias de hoje. Elas dispõem de recursos informacionais tão sofisticados, que se trabalhados corretamente,  podem facilitar pesquisas e tarefas, em equipes, para solucionar diversos tipos de problemas.

Entretanto, exigir que saibam de cor e salteado conteúdos que já estão disponíveis em rede e que não tem nenhuma relação com suas realidades é uma violência. Além de causar um desestímulo ao aprendizado, que é um tiro no pé, perdemos o melhor que as tecnologias da informação podem fazer para o futuro delas e do nosso país.

Quem me acompanha sabe que sou fã de carteirinha de alguns pensadores e, sempre que posso, os menciono em meus post. Hoje terei que mencioná-los novamente. Penso, que nada melhor para dar um puxão de orelha em muitos pais e educadores do que as sábias palavras de alguns estudiosos que há anos falam sobre a necessidade de mundaças na educação. Enjoy!

Michel Serres fala de forma encantadora sobre os processos envolvidos na evolução do homem, com especial ênfase no “perder para ganhar”. Perdemos algumas habilidades para ganhar outras melhores. Veja aqui, vale cada segundo.

Henry Jenking fala sobre as novas tecnologias e a necessidade das escolas e dos educadores incentivarem a produção coletiva ao invés do aprendizado autônomo. Leia aqui.

Rubem Alves em “Gaiolas e Asas” fala sobre as diferenças entre escolas que são gaiolas e escolas que são asas. Veja aqui.

Ken Robinson faz altas críticas à educação formal e alega que as crianças são educadas para serem bons trabalhadores e não pensadores criativos. Defende a idéia que desenvolver a criatividade nas crianças é tão importante quanto à alfabetização. Veja aqui.

Marshall McLuhan, lá longe, em 1966, já falava sobre o impacto do replay no aprendizado, do significado sem a experiência e, como não podia faltar, do novo papel das escolas:

“Vivemos na era do replay instantâneo, e esse é um dos desenvolvimentos mais notáveis de qualquer época, visto como nos permite ter o significado sem a experiência. Você não precisa assistir ao jogo. Pode ter o significado do jogo menos a experiência. A condição usual do homem é ter a experiência sem o significado. Isso é universal. O replay não é uma técnica de cognição, mas de recognição.”

“Qual seria, pois, o futuro da educação num mundo em que as proporções se inverteram? No passado humano comum, o conhecimento e a informação eram maiores dentro da sala de aula do que fora dela. Com a inversão dessa situação, dir-se-ia que é possível que a função da escola também se tenha invertido, que a função da escola já não seja instruir, mas descobrir. E a função do estabelecimento de ensino é treinar a percepção do ambiente exterior em vez de meramente reproduzir informação e introduzi-la nos crânios dos alunos.”

Note: texto originalmente publicado no blog da HSM



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