A “freeconomics”, ou economia do grátis, talvez seja o fato que mais explica isoladamente o temor e a desconfiança das empresas em relação à internet. Que história é essa de potenciais consumidores quererem produtos e serviços grátis em vez de pagar por eles? Como vamos cobrir nossos custos e gerar valor para o acionista? Colocar um paywall (como é conhecido internacionalmente esse pedágio de cobrança nos websites) em nosso portal resolve o problema?![]()
Ainda não há respostas definitivas para tais indagações, como todos sabem. No momento, o que vivemos é uma sobreposição de processos de tentativa-e-erro em busca de um novo modelo de negócio. Isso pede de nós, inclusive, distanciamento para valorizar o fato de sermos testemunhas oculares da história. Devemos poder apreciar a mudança em marcha, e participar da marcha ativamente, em vez de apenas sofrer com a mudança.
CONTUDO, NESTES TEMPOS DE INCERTEZAS, ALGUMAS COISAS COMEÇAM A FICAR CLARAS:![]()
1. Paywall is neither the question nor the answer. A decisão de cobrar pura e simplesmente pelo que for distribuído na internet não funciona, a exemplo do que mostraram as primeiras estimativas de leitura da edição online do tradicionalíssimo jornal britânico The Times, do magnata Rupert Murdoch, depois de ter instalado seu “paywall”. Os acessos teriam caído nada menos do que 65%. O problema, como se analisou no blog GigaOm, não é tanto a redução dos leitores atuais –teriam separado o joio do trigo, em teoria, ou os leitores que realmente interessam aos anunciantes dos leitores casuais desimportantes. O problema é que isso reduz drasticamente as possibilidades de crescimento futuro do negócio e atrapalha qualquer estratégia empresarial de longo prazo. Não estamos dizendo que nenhum tipo de cobrança será possível no ambiente digital (talvez cobrança contra um número ampliado de entregas, quem sabe?), mas a cobrança pura e simples parece ingênua.
2. Os custos fixos de qualquer empresa precisarão ser reduzidos ao mínimo, o que significa, muito provavelmente, que a economia em rede e a organização em rede não são apenas doces metáforas, nem modismos, mas prevalecerão no longo prazo. As iniciativas de código aberto nas áreas de inovação e gestão em empresas grandes e estabelecidas são indicadores inegáveis dessa tendência, assim como as hipóteses levantadas sobre o planejamento passar a ser feito em espiral daqui por diante (com criação e execução andando juntas e se repetindo ao infinito) e a organização estabelecida em torno de pessoas e não em torno de processos (pessoas em rede).
Em outras palavras, está em andamento uma reestruturação essencial do modo como se produzem coisas, mas falta descobrir como esse novo modo pode se tornar razoavelmente estável e sustentável para os diversos stakeholders.
3. Será necessário menos dinheiro com a reestruturação das organizações, mas ele terá de entrar por algum lugar, sem dúvida. Prova disso é que a própria água do planeta, que sempre foi gratuita, começará a ser paga em algum momento no futuro, evidenciando a insustentabilidade do “free” pelo “free”. Possivelmente o dinheiro tomará vias indiretas, contudo.![]()
Algumas variantes de modelo de negócio que comportam o grátis já podem ser observadas no setor de tecnologia (e podem, sim, ser copiadas em outras setores), embora tendam a aparecer muitas mais. O especialista em estratégias no setor de tecnologia Keith McFarland mencionou esses três recentemente na revista brasileira HSM Management:
a. Modelo de desdobramento. Atividades de inovação elevam a experiência do usuário a outro patamar, e por isso o usuário se dispõe a pagar ela experiência de consumo, mesmo que a tecnologia inicial seja grátis. Acontece muito na telefonia celular.
b. Modelo híbrido. Investimentos em inovação privada são feitos para os add-ons ou ocorre o versioning, no qual várias versões de uma tecnologia, como uma grátis e uma paga, são oferecidas.
c. Modelo de complementos. Um fornecedor pode vender um dispositivo que rode um aplicativo de código aberto ou um sistema operacional. À medida que o preço da tecnologia aberta cai, o preço do pacote ao consumidor diminui, aumentando a demanda pelo dispositivo, sem que o fabricante reduza o preço desse dispositivos.
PS: Vale esclarecer o que é modelo de negócio, conceito talvez muito difundido mas talvez pouco entendido. Ele descreve as maneiras como uma empresa gera: receita de vendas, lucro bruto, operações, capital de giro e investimento.