Internet: Reforma E, Agora, Contra-Reforma?
Publicado em por Digital Happenings Interactive

 

No século 16, a Igreja Católica, que constituía o poder máximo da Europa de então, era alvo de muitas insatisfações, acusada de luxo excessivo, usura e falta de ética. Isso resultou em um movimento de rebelião e ruptura, a Reforma Protestante.

A reação inicial da Igreja foi punir os rebeldes, mas não funcionou e o poder estabelecido partiu para o que ficou conhecido como Contra-Reforma, a reorganização das estruturas administrativas, que incluiu iniciativas como a criação da ordem linha-dura dos jesuítas, a convocação do Concílio de Trento e o restabelecimento da Inquisição.

A revista The Economist acaba de soltar um artigo comparando o que está acontecendo agora na sociedade, por conta da internet, com o que aconteceu na sociedade no século 16, por conta da Igreja. Seu raciocínio é o seguinte: 15 anos atrás, quando foi criada, a internet equivaleu a uma Reforma, insurgindo-se contra o que seriam a usura e os excessos do capitalismo. Pregava uma plataforma aberta, livre, sem donos e única, um paraíso celestial digital com proposta de democracia direta. Isso ficou evidenciado na “Declaration of the Independence of Cyberspace” de John-Perry Barlow (o rapaz da foto deste post).

Agora, contudo, estaríamos assistindo a um movimento contrário a isso, que é a fragmentação dessa internet aberta em várias “internets fechadas”, no sentido de passarem a possuir fronteiras geográficas e comerciais. É como se surgissem “internets pedagiadas”. A metáfora-chave curiosamente deixa de ser “paraíso celestial”, como no início, e passa a ser “nuvem”, referindo-se a cada um desses armazéns lotados de computadores, denominados “data centers”, distribuídos por toda internet (seriam o oposto do princípio libertário “um computador = uma conexão”). Escolhendo um termo forte, a Economist sugere que está ocorrendo uma “balcanização” da internet, que vem sendo dividida entre forças de três tipos:

Governos que querem reassegurar sua soberania. Não se trata apenas da censura da China ao Google, que pode ser vista como algo “do mal”. Nem sempre as motivações são sinistras. O firewall da Austrália não o é, por exemplo, e os pedidos de governos para retirar material do Google/YouTube, no ranking que ilustra este post (encabeçado pelo Brasil) também não o são necessariamente. Um exemplo significativo são os vários países exigindo que suas agências tenham acesso a emails enviados de smartphones Blackberry, culminando com a Índia ameaçando cortar o serviço Blackberry da RIM na semana que passou – e a Índia já deu a entender que outros provedores de comunicação, como Google e Skype, estão na mira.

Grandes companhias de TI que estão construindo seus territórios digitais, limitando conexões com outras partes a internet e estabelecendo regras e controles específicos. O exemplo típico é o da Apple, mas ela não está sozinha.

Donos de redes sociais que estão tratando diferentemente tipos diferentes de tráfegos – por exemplo, proporcionando vias mais rápidas para os pagantes e vias mais lentas para os usuários gratuitos. É o caso de redes de relacionamento amoroso, como a brasileira ParPerfeito.

Não há dúvida de que esses serviços proprietários emergentes são uma tentativa (válida) de encontrar um modelo de remuneração sustentável para os negócios, que sustente a contínua inovação digital. Mas não se sabe até que ponto eles macularão o valor essencial da internet, que é o de de neutralidade e universalidade. A universalidade como possibilidade não vai acabar, arrisca-se a prever a Economist, mas é preciso ver quão altos serão os muros que separarão as novas internets, caso a tendência se confirme.

Enfim, a tendência de fragmentação da internet parece ser inegável e está apenas começando. A “contra-reforma” merece nossa atenção, até porque a Economist pode estar nos dando um aviso do tipo “o gato subiu no telhado” ou seja, “a internet desejada pelos cidadãos consumidores talvez seja inviável no nosso sistema econômico; é preciso haver sub-redes ‘pedagiadas de algum modo’ para a rede ser sustentável no longo prazo”. Essa é a lógica econômica, pelo menos. Mas a economia não explica tudo. A absolutamente extraordinária ascensão da internet, por exemplo, não é explicável em termos estritamente econômicos. Nenhum economista ousaria prever que uma rede acadêmica criada dentro do Departamento de Defesa dos EUA chegaria aonde chegou, com tal velocidade e gerando tantos benefícios para a sociedade e para a economia, incluindo ganhos de eficiência para os negócios.

E você, o que acha?

 

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